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Sobre a Exposição do Mundo Português

23 junho 2021
Fotografia da construção da Exposição do Mundo Português. Junto ao rio Tejo máquinas e trabalhadores preparam o terreno que vai receber os pavilhões da exposição. Biblioteca de Arte FCG, foto de Horácio Novais

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Sobre a notícia

Memórias de Cottinelli Telmo

 

“A Exposição do Mundo Português foi inaugurada em plena guerra… Nas últimas noites que antecederam a abertura dormi no meu gabinete, entre pranchetas e papelada.

Ao amanhecer acordam-me… Eram 6 da manhã? Da Praça do Império vinha um rumor de artilharia pesada, um reboar trágico que devia corresponder a um enorme volume de tanques, de baterias, de engenhos de guerra avançando com a lentidão cínica da massa de aço que sabe que nada a fará parar. No cinzento triste e húmido da hora vejo sinais de invasão iniciada durante a noite… Lisboa ocupada pelos teutões! Pior ainda: os oito séculos de uma História reduzidos a uma sangrenta inutilidade dos esforços de tantos!… E isto no próprio dia em que, horas depois, devia ser inaugurada a Exposição!…

Visto-me à pressa e caminho estremunhado, acreditando no que a minha imaginação cria. Vejo massas de soldados, prontos a dominar com violência sem palavras, olhares traiçoeiros e duros rasgando o bordo dos capacetes de guerra… Sinto-me seguro por pulsos de ferro e vejo o meu pobre amigo Sá e Melo fuzilado de encontro a araucária do Pavilhão dos Portugueses no Mundo…

O que os nossos olhos viram, não se descreve nem se repete!… Espetáculo único que me ficou para sempre na memória!… Tudo era como prevíramos, mas os tanques, as baterias e os engenhos de guerra não eram mais… que os camiões de limpeza da Câmara Municipal de Lisboa – e os invasores teutónicos… humildes “almeidas” de vassoura aperrada, disciplinados como soldados, sentados costas com costas nas viaturas que rolavam e se distribuíam ocupando pontos estratégicos, rigorosamente previstos por um comando invisível.

Imponente parada! Jerónimos e Pavilhão de Honra, vagamente desenhado na neblina, serviam de pano de fundo ao exército de saneamento, à invasão da limpeza, à conquista do lixo!

Sem falso afã, antes em plena consciência da sua missão, esses modestos colaboradores da Exposição do Mundo Português, fizeram desaparecer, numa hora, as tábuas, as aparas, os papéis, o pó, o saco de cimento e o embrulho das sanduíches dos trabalhadores noturnos, o trapo, a lata, os cacos – todo esse inconcebível bricabraque que vem não se sabe de onde e se junta não se sabe como!

As nuvens de pó embaciavam a silhueta dos trabalhadores e assemelhavam-se ao fumo de tiros sem ruído, como se àquela projeção cinematográfica tivesse faltado o som.

E poucas pessoas puderam gozar este espetáculo perfeitamente inédito! Lá adiante descobriu um automóvel da Câmara com um pequeno grupo de engenheiros: o comando existe, afinal!

O claro da manhã ia subindo e as mangueiras da rega, apagando o incêndio da poeirada, davam à Praça do Império o acabamento de uma última demão a tinta de esmalte!…

O exército retirava em boa ordem… A Exposição – lavada, fresca como uma alface – recebia o pó de arroz dos primeiros raios de sol, preparava-se para receber os convidados, os milhares de portugueses que por ela deviam passar!…

Por trás de tudo isto estava uma ordem do Ministro – o Ministro que não esquece nada, o Ministro… dona de casa!…”

 

Cottinelli Telmo,  [dact.], espólio Cottinelli Telmo – IHRU:
Arquivo Pessoal de José Cottinelli Telmo

 

NB a ortografia actualizada de acordo com o AO em vigor

Foto: Fotografia da construção da Exposição do Mundo Português. Junto ao rio Tejo máquinas e trabalhadores preparam o terreno que vai receber os pavilhões da exposição. Biblioteca de Arte FCG, foto de Horácio Novais